A Psicologia Transpessoal Os profissionais que trabalham com os estados modificados de consciência estão vivendo um momento bastante oportuno no que se refere à ampliação de horizontes epistemológicos e teóricos com inevitáveis repercussões na clínica psicológica. A psicologia transpessoal encontra-se hoje em expansão cada vez maior, e não considerar sua evolução representa uma atitude de, no mínimo, ignorância do processo cultural no âmbito da Psicologia. As bases antropológicas que fundamentaram as principais correntes psicológicas consideraram o ser humano em sua dimensão pessoal, enfatizando a sua condição de reagente a estímulos/forças externas (Behaviorismo) ou internas (Psicanálise), com pouco espaço para a ação consciente. A visão humanista representa um passo além dessas concepções, entretanto permanece deixando à margem outros estados de consciência igualmente promotores de bem-estar psicológico. A psicologia transpessoal considera todos esses níveis e amplia o campo da pesquisa em Psicologia, incluindo dimensões da mente inconsciente, experiências, percepções e comportamentos não-ordinários que se analisados dentro dos modelos anteriores não passariam de situações anômalas sem um significado maior ou receberiam o rótulo de patologia. Dos anos sessenta até hoje constata-se um crescente esforço no sentido de uma adequada fundamentação teórica nos estudos transpessoais acadêmicos; uma preocupação com os aspectos epistemológicos e metodológicos, o que tem permitido desdobramentos valiosos para a construção e aplicação de uma psicoterapia transpessoal, centrada no crescimento humano e no bem-estar psicológico em níveis mais amplos de integração individual, psicossocial e cósmica. Há dois fatos relevantes neste momento: um deles refere-se ao movimento científico que se vem operando no sentido de obter a legitimação da psicologia transpessoal junto ao Conselho Federal de Psicologia. Ações importantes de psicólogos que atuam dentro desta abordagem estão sendo efetivadas para tal empreendimento. Não temos dúvidas de que isto ocorrerá o mais breve possível, porquanto representa uma tendência natural de todo processo de construção e validação de conhecimentos acadêmicos. O outro fato é a 16ª Conferência Internacional Transpessoal, a qual acontecerá de 13 a 18 de junho deste ano na Califórnia, com a participação de pessoas destacadas dentro dos estudos transpessoais, como Stanislav Grof, Charles Tart, Frances Vaughan, Roger Walsh, dentre outros. A conferência tem como tema central “Imaginação Mítica e Sociedade Moderna: O Re-Encantamento do Mundo”, e serão abordados os mais variados assuntos de importância para o mundo contemporâneo, o que mostra o caráter atual e progressista da proposta transpessoal. Dentro deste panorama positivo, nós que atuamos no campo da terapia regressiva não podemos ficar alheios a esse movimento, especialmente pelo fato de que nossa proposta há que ser transpessoal. Consideramos que o processo regressivo de per si não é suficiente para tratar certos problemas psicológicos ou comportamentais. Não basta reviver situações traumáticas para promover mudanças saudáveis nos clientes; é preciso um trabalho mais profundo de transformação. O trabalho experiencial regressivo é uma porta que se abre para a emergência dos níveis superiores da consciência. Este trabalho experiencial ajuda o cliente a mudar sua forma de ver o problema, levando-o à percepção da totalidade, unicidade e especificidade. É preciso que ocorra a conexão com o “eu superior”, levando o cliente a uma mudança mais “vertical”, a uma compreensão ampla do seu processo de crescimento, em direção a outros níveis de consciência. Neste sentido, o trabalho regressivo de orientação transpessoal considera a mudança de crenças e valores, o trabalho com os sentimentos, a modificação dos padrões de comportamento, a revisão de metas pessoais de vida, a ampliação do nosso nível de consciência etc. Muito mais do que uma compreensão linear do “ontem e hoje”, o trabalho regressivo transpessoal exige uma compreensão e uma mudança mais profundas. Por isto mesmo, nem todo processo de regressão de memória é transpessoal. Acreditamos que de tudo isto emergirá uma visão espiritual de homem e de realidade, afinal como afirma Capra em sua obra “As Conexões Ocultas” (Ed. Cultrix) “quando olhamos para o mundo à nossa volta, percebemos que não estamos lançados em meio ao caos e à arbitrariedade, mas que fazemos parte de uma ordem maior, de uma grandiosa sinfonia da vida”, porquanto “a experiência espiritual é uma experiência de que a mente e o corpo estão vivos numa unidade”. Henrique Fernandes
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